Se ela dissesse porque tantas vezes pegava na caneta e escrevia, ninguém haveria de entender.
Talvez fosse pelo facto de que ninguém verdadeiramente conseguia entender. O feitio marcado e remarcado feito pedra dura, o sentimento a explodir pelo seu corpo fora eram, ainda assim, camuflados pelo um exterior que parecia cair se assim o mandassem.
Era sozinha.
Um corpo que deambuleava pelas ruas à espera de um olhar que vi-se o seu interior e deslumbra-se a quantidade de cores que pintavam o interior de um corpo cinzento. Mas tomara que alguém aparecesse!
Sentia-se abandonada por uma família sempre lá, incompreendida no seio de uma compreensão cega, que só queria ver o olhar ordeiro e a perna traçada, nunca o riso lançado no meio do silêncio de uma reunião de família, ou a camisola por fora das calças gastas pelo tempo por onde ela passava. Como se importasse isso para o que ela era realmente por dentro! Ela era do avesso, porque do avesso fora construída.
Queriam fazer dela uma boneca de porcelana com cabelos encaracolados, de um castanho asseado, perfeitamente colocados, pestanas delineadas pelo rimel e cara estampada de pó de arroz que escondiam as borbulhas da sua juventude. Davam-lhe vestidos para substituir as calças rotas e gastas e, em vez das sapatilhas, colocavam-lhe sapatos de salto alto nos pés envolvidos em meias brancas, de um branco transparente que não escondia as marcas das quedas divertidas no meio da relva.
Mas ela tirava tudo. Soltava o cabelo rebelde pelas costas, tirava a máscara que lhe cobria a face imaculada, deixava o vestido no chão e um sapato em cada canto do quarto, completamente desarrumado. E saía pela janela, em direção à floresta. Saltava o muro que cercava a sua casa e corria em direção ao riacho que, lá ao fundo, cortava o chão húmido da floresta.
Com ela trazia um caderno de capa preta, que se fechava com elástico, e uma caneta que a sua avó lhe dera quando ela tinha feito 14 anos. A avó fora a única que via as cores do seu interior. Fora a única pessoa que alguma vez conseguiu pintar o cinzento do seu exterior com as cores. Tomara que ela ainda cá estivesse para a ajudar a viver. Agora, vivia sozinha, num mundo de restrições e regras que não queria cumprir. Num mundo em que a obrigavam a vestir a pele de um outro alguém para que os outros gostassem dela. Não era justo porque ela nunca obrigara ninguém a pintar-se de uma outra forma.
Então, ouvindo apenas o som límpido da água pura a correr pela terra, soltando salpicos para as suas pernas, pegava na caneta que nunca deixava de escrever, e deixava-a dançar pelo papel, quase independente, marcando traços de um desafabo que mais ninguém poderia ouvir. Apenas a água, que levava tudo para longe.
E lá em casa, impávidos a tudo, os outros sentavam-se à mesa, colocando os guardanapos de um tecido branco sobre as pernas, e cumpriam as horas de jantar, olhando uns para os outros, sabendo que ela havia fugido, querendo falar, mas calados pelas regras. E ela, lá longe ria, ria com o som cómico que os pássaros chilreavam para ela, para os coelhos que surgiam e desapareciam pelas ervas e os arbustos selvagens, pintados de um verde luminoso, que cobriam o chão. Ali, ela podia ser ela, poderia ser sozinha, mas com vida.
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