A minha mente é como uma mulher que se esconde
numa caverna, dentro da montanha por detrás de uma cascata. Desgrenhada, suja,
com uma postura curvilínea, vestindo peles de urso, que lhe escondem as curvas
magras e brancas da tanta escuridão. Nunca saiu para lá da cascata, mas
transforma a sua caverna no mundo. Não tem segredos, para ela, as paredes da
sua caverna, nem a água da cascata. A caverna é profunda, com várias galerias
que vão escondendo pinturas perfeitas de histórias que imaginou com pessoas que
nunca conheceu, nem sabe se existem. Nas histórias, o mundo cresce dentro da
caverna e ela consegue ver o sol límpido, sem ser destorcido pela água.
Naquelas pinturas rupestres da caverna, a mulher da minha mente sai sem ter
medo de a fazerem voltar à caverna. É limpa, numa pele branca, suave, sem
arranhões que a vida lhe fizera ao longo dos anos. O seu cabelo voa suave em
danças com o vento que lhe beija o pescoço. A sua postura endireita-se e
cumprimenta o mundo que se ajoelha ao vê-la a passar, direita, bela e brilhante
sob a luz do sol que ilumina o seu corpo. Tomara que a minha mulher saísse da
sua caverna e andasse pelo mundo sem medo que o sol a queimasse mal ela se
revelasse, ou que a escuridão da noite a engolisse e levasse para as
profundezas da Terra. É por isso que não sai, e assim, suja pela vida, receada
pelo mundo, vive na caverna, espreitando o mundo, à espera que ele entre pela
caverna como entra pelas suas histórias quando as pinta nas telas das paredes
de pedra. E as paredes nunca se extinguem. Há sempre mais alguma a ser a
pintada. E a mulher da minha mente pinta, pinta com o sangue dos sacrificados
que entraram para a sua caverna. Pinta com a vida que jaz morta num canto
fedorento da sua caverna. Molha a mão no vermelho sombrio e com os dedos vai
desenhando linhas pela parede, iluminada por uma tocha. E assim um novo mundo
nasce da vida dos sacrificados. E enquanto não é capaz de saltar a água da
cascata que a esconde do mundo, vai pintando as paredes em histórias que nunca
ninguém poderá ler.
Happy New Year 2013
ResponderEliminarIgualmente!
Eliminarjuro que adoro estes textos .. são fantásticos, inês!
ResponderEliminarObrigada Daniela!
Eliminar