quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A mulher da minha mente

A minha mente é como uma mulher que se esconde numa caverna, dentro da montanha por detrás de uma cascata. Desgrenhada, suja, com uma postura curvilínea, vestindo peles de urso, que lhe escondem as curvas magras e brancas da tanta escuridão. Nunca saiu para lá da cascata, mas transforma a sua caverna no mundo. Não tem segredos, para ela, as paredes da sua caverna, nem a água da cascata. A caverna é profunda, com várias galerias que vão escondendo pinturas perfeitas de histórias que imaginou com pessoas que nunca conheceu, nem sabe se existem. Nas histórias, o mundo cresce dentro da caverna e ela consegue ver o sol límpido, sem ser destorcido pela água. Naquelas pinturas rupestres da caverna, a mulher da minha mente sai sem ter medo de a fazerem voltar à caverna. É limpa, numa pele branca, suave, sem arranhões que a vida lhe fizera ao longo dos anos. O seu cabelo voa suave em danças com o vento que lhe beija o pescoço. A sua postura endireita-se e cumprimenta o mundo que se ajoelha ao vê-la a passar, direita, bela e brilhante sob a luz do sol que ilumina o seu corpo. Tomara que a minha mulher saísse da sua caverna e andasse pelo mundo sem medo que o sol a queimasse mal ela se revelasse, ou que a escuridão da noite a engolisse e levasse para as profundezas da Terra. É por isso que não sai, e assim, suja pela vida, receada pelo mundo, vive na caverna, espreitando o mundo, à espera que ele entre pela caverna como entra pelas suas histórias quando as pinta nas telas das paredes de pedra. E as paredes nunca se extinguem. Há sempre mais alguma a ser a pintada. E a mulher da minha mente pinta, pinta com o sangue dos sacrificados que entraram para a sua caverna. Pinta com a vida que jaz morta num canto fedorento da sua caverna. Molha a mão no vermelho sombrio e com os dedos vai desenhando linhas pela parede, iluminada por uma tocha. E assim um novo mundo nasce da vida dos sacrificados. E enquanto não é capaz de saltar a água da cascata que a esconde do mundo, vai pintando as paredes em histórias que nunca ninguém poderá ler.



4 comentários: