terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Deixem-me


Deixem-me ir! Deixem-me chorar as lágrimas que quero. Deixem-me manchar o vestido que me aperta o peito. Deixem-me soluçar, deixem-me sonhar com ilusões que em tempos foram verdades. Deixem-me ir, correr até as pernas começarem a falhar e os pés deixarem de pisar a terra. Deixem-me cair, magoar-me, sangrar lentamente, em dores terríficas, que me vão cortando a razão, em dores agonizantes, que me consumem a sanidade. Deixem-me sangrar, esvaziar-me. Deixem que o nada me absorva e preencha as lacunas do meu corpo. Deixem-me ir, por favor. Deixem o rio correr para a foz e beijar o mar. Deixem a neve moldar a paisagem e derreter no horizonte quando o sol se levanta. Deixem que a lua brilhe no céu e as estrelas salpiquem a escuridão. Deixem que as ondas enrolem e batam na areia quente, dourada, que os meus pés um dia calcaram. Deixem que o fogo arda, queime, consuma os corpos, consuma a vida morta que vai sucumbindo. Deixem-me ir com o vento, voar com ele, cantar com ele, dançar nele. Sentir o cabelo voar com a brisa e o corpo arrefecer ao fim do dia. Deixem-me ir. Deixem, deixem a vida, deixem a vida correr lá no longe que os olhos não veem, que se perde na linha ténue do horizonte desenhado. Deixem-me…



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