Deixem-me ir! Deixem-me chorar as
lágrimas que quero. Deixem-me manchar o vestido que me aperta o peito.
Deixem-me soluçar, deixem-me sonhar com ilusões que em tempos foram verdades. Deixem-me
ir, correr até as pernas começarem a falhar e os pés deixarem de pisar a terra.
Deixem-me cair, magoar-me, sangrar lentamente, em dores terríficas, que me vão
cortando a razão, em dores agonizantes, que me consumem a sanidade. Deixem-me
sangrar, esvaziar-me. Deixem que o nada me absorva e preencha as lacunas do meu
corpo. Deixem-me ir, por favor. Deixem o rio correr para a foz e beijar o mar.
Deixem a neve moldar a paisagem e derreter no horizonte quando o sol se
levanta. Deixem que a lua brilhe no céu e as estrelas salpiquem a escuridão.
Deixem que as ondas enrolem e batam na areia quente, dourada, que os meus pés
um dia calcaram. Deixem que o fogo arda, queime, consuma os corpos, consuma a
vida morta que vai sucumbindo. Deixem-me ir com o vento, voar com ele, cantar
com ele, dançar nele. Sentir o cabelo voar com a brisa e o corpo arrefecer ao
fim do dia. Deixem-me ir. Deixem, deixem a vida, deixem a vida correr lá no
longe que os olhos não veem, que se perde na linha ténue do horizonte
desenhado. Deixem-me…
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