domingo, 27 de janeiro de 2013

A Fotografia

A dor fria da solidão aperta. Contraia-lhe o peito numa explosão de pensamentos vazios, mortos. As paredes à volta apenas erguiam quadros que alguém pintou há muito e esqueceu, e o pó vai cobrindo as linhas de um rosto de alguém que por lá passou. E ela, sentada num dos cantos da sala, ia absorvendo o cheiro a podridão que se vai impregnando nas suas roupas e tingindo a pele arrepiada num tom sujo, velho, esquecido. Imaginava todas as pessoas que se tinham escondido ali e deixado cair todas as memórias nas lágrimas que iam pintando a madeira, húmida, debaixo do seu corpo pesado. Cada lágrima que caia era um estrondo que abalava o corpo e remexia-lhe o cérebro em dores profundas e cortantes. E o coração batia passivo por algo que o fizesse deixar de bater e deixasse descansar o corpo atormentado pelos fantasmas de uma vida que nunca chegou a viver. Corpos esvoaçantes, vazios, que lhe iam consumindo o resto de sanidade que lhe restava em alucinações febris. O seu corpo transpirava num suor frio que lhe ia arrepiando a pele enegrecida. E os quadros velhos olhavam para ela como se nela vissem a sua própria vida e vertiam a poeira num fluído viscoso que ia escorrendo pela parede e marcando a parede em linhas retas. E as grades começaram a tomar forma, cada linha, cada traço, cada tom daquela tinta maldita iam prendendo a vida naquela sala escura. Em pé se colocou e correu para a porta, que se fechava iminentemente à sua frente trancando a liberdade ameaçada lá fora. Não!, gritava ela em sons agudos e aterrorizados. Não! Não! Não!
A brisa soprada da noite arrefecia-lhe o corpo quente e transpirado. Os seus olhos abriram, o peito dilatou e o corpo saltou da sua posição num movimento rápido e ela estava agora sentada. O ar fresco beijava-lhe a pele em suaves carícias e os pulmões enchiam-se, puros, e o coração acalmava. Os olhos agora despertos choravam, compulsivos, todas as lágrimas que nunca tivera coragem de chorar, por medo da solidão que lhe construíra o mundo em que se deitava e dormia. E os lençóis que a envolviam absorviam o desespero que iam escorrendo pelo seu rosto. Que saudades de tudo, de tudo onde tinha vivido, onde tinha aprendido a viver! Tornou a deitar-se e voltou-se para a janela aberta. As cortinas brancas esvoaçavam envoltas na brisa, e embalava-a de novo na frescura da noite. E a fotografia olhava-a ao longe, saudosa, quente, tentadora. Ela na coberta pela noite escura e a foto, toda ela luz. Se o paraíso fosse lá, que tudo acabasse e o seu corpo libertasse a alma ansiosa por voar! Que as lágrimas lhe corroessem a cara, que a dor lhe quebrasse os ossos, que o vazio a seca-se, mas que tudo para aquele pedaço de vida acabasse e ela entrasse na fotografia, que abraça-se o corpo que a saúda sorridente, que dormisse nos seus braços, que fosse feliz, mas que não vivesse. Que a sua a vida fosse a morte menos dolorosa que a realidade. Que terminar em nada fosse aquele grande tudo.





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