A dor fria da solidão aperta.
Contraia-lhe o peito numa explosão de pensamentos vazios, mortos. As paredes à
volta apenas erguiam quadros que alguém pintou há muito e esqueceu, e o pó vai
cobrindo as linhas de um rosto de alguém que por lá passou. E ela, sentada num
dos cantos da sala, ia absorvendo o cheiro a podridão que se vai impregnando
nas suas roupas e tingindo a pele arrepiada num tom sujo, velho, esquecido.
Imaginava todas as pessoas que se tinham escondido ali e deixado cair todas as
memórias nas lágrimas que iam pintando a madeira, húmida, debaixo do seu corpo
pesado. Cada lágrima que caia era um estrondo que abalava o corpo e remexia-lhe
o cérebro em dores profundas e cortantes. E o coração batia passivo por algo
que o fizesse deixar de bater e deixasse descansar o corpo atormentado pelos
fantasmas de uma vida que nunca chegou a viver. Corpos esvoaçantes, vazios, que
lhe iam consumindo o resto de sanidade que lhe restava em alucinações febris. O
seu corpo transpirava num suor frio que lhe ia arrepiando a pele enegrecida. E
os quadros velhos olhavam para ela como se nela vissem a sua própria vida e
vertiam a poeira num fluído viscoso que ia escorrendo pela parede e marcando a
parede em linhas retas. E as grades começaram a tomar forma, cada linha, cada
traço, cada tom daquela tinta maldita iam prendendo a vida naquela sala escura.
Em pé se colocou e correu para a porta, que se fechava iminentemente à sua
frente trancando a liberdade ameaçada lá fora. Não!, gritava ela em sons agudos e aterrorizados. Não! Não! Não!
A brisa soprada da noite
arrefecia-lhe o corpo quente e transpirado. Os seus olhos abriram, o peito
dilatou e o corpo saltou da sua posição num movimento rápido e ela estava agora
sentada. O ar fresco beijava-lhe a pele em suaves carícias e os pulmões
enchiam-se, puros, e o coração acalmava. Os olhos agora despertos choravam,
compulsivos, todas as lágrimas que nunca tivera coragem de chorar, por medo da
solidão que lhe construíra o mundo em que se deitava e dormia. E os lençóis que
a envolviam absorviam o desespero que iam escorrendo pelo seu rosto. Que
saudades de tudo, de tudo onde tinha vivido, onde tinha aprendido a viver!
Tornou a deitar-se e voltou-se para a janela aberta. As cortinas brancas
esvoaçavam envoltas na brisa, e embalava-a de novo na frescura da noite. E a
fotografia olhava-a ao longe, saudosa, quente, tentadora. Ela na coberta pela
noite escura e a foto, toda ela luz. Se o paraíso fosse lá, que tudo acabasse e
o seu corpo libertasse a alma ansiosa por voar! Que as lágrimas lhe corroessem
a cara, que a dor lhe quebrasse os ossos, que o vazio a seca-se, mas que tudo
para aquele pedaço de vida acabasse e ela entrasse na fotografia, que abraça-se
o corpo que a saúda sorridente, que dormisse nos seus braços, que fosse feliz,
mas que não vivesse. Que a sua a vida fosse a morte menos dolorosa que a
realidade. Que terminar em nada fosse aquele grande tudo.
o corpo que a saúda sorridente, que dormisse nos seus braços, que fosse feliz,
mas que não vivesse. Que a sua a vida fosse a morte menos dolorosa que a
realidade. Que terminar em nada fosse aquele grande tudo.
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