quinta-feira, 23 de maio de 2013

Sinfonia em Sol menor

Escrever é como criar música. Precisamos de som, melodia, movimento. Começa-se pelos acordes simples da inspiração e o coração trata de ornamentar com o sonho a melodia que ecoa cá dentro. Escrever é como voar. Voa-se para longe, para perto, para o impossível, para a vida daquilo que queríamos sentir. Voa-se para dentro do coração, voa-se para as lágrimas que caem sob o rosto de alguém, voa-se para perto de quem queríamos sentir, voa-se para quem não podemos sentir. Voa-se para tudo menos para nós próprios. Cria-se sempre um outro alguém que sente como nós, pensa como nós, age como nós, mas nunca chega ser quem somos. Ai se todos pudessem criar o voo triunfal da escrita, colocar no papel aquilo que a voz consegue explicar, colocar tudo, a nu, a frio, na cruel cor da verdade. Ai se todos ouvissem a sinfonia que crio, que pinto e repinto, esculpo e volto a esculpir no meu pedaço de mundo, nesta folha branca. Escrever é gritar a plenos pulmões sem nunca se ouvir. É viver em todo o sítio e ao mesmo tempo em sítio algum. Não sinto mais que vocês. Não sofro mais que vocês. Não tenho nada de me distinga. Tenho é esta sede insaciável em querer dizer aquilo para que o corpo não chega, aquilo que o pensamento não deixa transpor dos meus muros. Escrever é ser só com todos os que criamos. Eu e os meus fragmentos, pintados para me acompanhar. Mais vale ser sozinha com eles do que se estar só e não se ouvir vida cá dentro.




Inês.   



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