quarta-feira, 17 de julho de 2013

Dia.

O dia nasceu. 
Abri os olhos e vi que tudo não era um sonho. O cheiro era real, a imagem era real, a nudez era real. O meu corpo voltara a ser jovem e tu, tu meu amor, estavas de novo com a jovialidade que me fez amar-te pela eternidade. Onde estariam nossos filhos, nossos netos? Onde estariam a nossa vida? Teríamos oportunidade de vivê-la de novo? Ó meu amor, nem um ponto, nem uma vírgula substituiria por outro ponto qualquer. Não me teria calado para deixar de dizer tudo o que te disse. Bom ou mau, trouxe-me aqui, ao início depois de viver o para sempre contigo. Estavas tão calmo, tão sereno, tão lindo sob a luz brilhante que fazia contrastar o teu tom moreno com os lençóis, e assim dormias. Tal como me lembrava de todas as vezes que ficara acordada a ver-te dormir ao meu lado. Que seria tudo aquilo? Já há tanto tempo que saudava a tua presença. Há tanto tempo que chorava por um toque teu. Fora consumida pela saudade de nunca mais te ter e pela doença de não te ver. Só me lembrava do sofrimento, da pele enrugada, da tua alma no olhar dos nossos, dos medicamentos, da dores, do teu sorriso naquela fotografia. E agora estava ali, ali como no princípio. E tudo à minha volta se multiplicava por luz. A minha pele tornara-se macia, o cabelo escuro e o olhar palpitante. Aproximei-me e abracei-te contra mim, e num pequeno estremecer os teus olhos foram tateando a luz até se pousarem em mim. Ó Deus, ó divindade, se não era tudo aquilo que me regia naquele sorriso e naqueles olhos!
Deram-se as mãos, celaram-se os beijos, uniram-se os corpos. Era eu com ele e ele em mim. 

A noite cerrara-se em choro. 
O coração deixou de bater e o corpo consumido estava vazio.
Amanhã era um novo dia.  


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